Hipnose do ódio, por Cíntia Mua

Hipnose do ódio, por Cíntia Mua

O ódio desumaniza, revela o pior de nós. Paradoxalmente, empodera, reverberando no contexto da desinformação das massas, instrumentalizado na ambiência das redes sociais.

A sociedade contemporânea vive sob a hipnose do ódio, reproduzindo-o, ávida e acriticamente, à busca de likes. Na ânsia de ser significante no mundo digital, o ser humano esquece o significado das imagens, palavras, gestos e ações no contexto social e suas repercussões à civilidade.

Odiar o outro tornou-se necessário para aqueles que, enquanto odeiam, não têm tempo para o autoconhecimento, o autocomedimento, a empatia, a solidariedade humanística.

O discurso de ódio aflora, incorpora-se e recrudesce como uma forma legítima de liberdade de expressão para aqueles que ignoram que nenhum direito fundamental, tampouco a liberdade de expressão, é absoluto, porquanto encontra limite na alteridade.

Numa sociedade que expressa suas emoções por emojis, a humanidade parece demodê. A verborragia limitada por um número de caracteres, sem contraponto, escuta ativa ou contraditório, justifica-se porque a comunicação líquida não pode perder tempo para estas “burocracias”.

Até chegar a sua vez.

Imagine-se pai ou mãe de uma jovem de 34 anos que morreu às vésperas do Dia das Mães sonhando com a maternidade, a qual postergou para exercê-la responsavelmente num momento futuro, como milhares de mulheres fazem todos os dias.

O fato é digno de comoção, não fosse a jovem uma magistrada. A magistrados, o ódio prevalece à humanidade, sendo justificável debochar da dor do luto para não perder o timing de uma piada.

A ombudsman da Folha de São Paulo justificou que a charge publicada no último sábado, que retrata uma cova recém coberta por terra, com a inscrição na lápide: “Vidinha mais ou menos. Até perdê-la junto dos penduricalhos” não teria qualquer relação com a morte da magistrada, mas uma crítica à remuneração da magistratura e que a correlação seria uma infeliz coincidência, que não condiz com a intenção da chargista.

A resposta é risível.

No perfil da conta da chargista no Instagram, ela explica seu processo de criação das charges. Atenta às notícias “quentes” da semana, elabora a charge na sexta pela manhã, para não perder a noticiabilidade.

Ao se justificar, após ampla irresignação de entidades de classe da magistratura, de diversos tribunais, do CNJ e do STF, aduz que não sabia da morte de Mariana. Uma chargista que se informa previamente às suas criações não sabia da morte em questão, que esteve nas manchetes dos principais jornais do país, inclusive na Folha de São Paulo?

O argumento é pífio e envergonha as mulheres de todo o país. Uma mulher que vilipendia a memória de outra mulher está longe de ser uma defensora da nossa luta histórica por igualdade e respeito. Reproduz misoginia. Desrespeita uma família, uma classe e a sociedade enlutadas.

A liberdade de expressão deve ser exercida com ética e responsabilidade.

O repugnante episódio da chargista da Folha de São Paulo é uma lição de como a liberdade de imprensa não deve ser exercida, porquanto deslegitimada no Estado Democrático de Direito, que exige o respeito aos direitos humanos e fundamentais de todos, independentemente de cargo, função, gênero, idade, opção sexual, classe social, etc., sem qualquer discriminação.

Cíntia Teresinha Burhalde Mua
Juíza aposentada do TJRS e diretora da AJURIS