Por Mariana

Por Mariana

Nenhuma instituição ou corporação está acima da crítica. Mas nenhuma crítica se engrandece quando abdica da dignidade

A recente perda da Juíza Mariana Francisco Ferreira, aos 34 anos, não é apenas uma tragédia familiar ou um episódio doloroso para colegas e amigos. Uma vida interrompida no momento em que florescia com intensidade rara – dedicada, comprometida, apaixonada pela profissão que escolhera desde os bancos escolares.

Dias após sua morte, ainda em meio ao luto, fomos surpreendidos pela publicação de uma charge que associou sua memória ao debate sobre remuneração da magistratura. Não se trata aqui de negar a liberdade de expressão, nem de interditar a crítica pública às instituições – algo indispensável à democracia. O que se questiona é outra coisa: o rebaixamento do padrão humano e ético do debate nacional.

Há temas que exigem rigor, contexto e serenidade. Sobretudo quando atravessados pela dor concreta de pessoas reais.

Mariana, como tantas mulheres brasileiras, buscava conciliar a intensidade da vida profissional com o legítimo sonho da maternidade. Trabalhou até a noite anterior ao procedimento médico que acabaria lhe custando a vida. Sua história, infelizmente, não é isolada. Ela revela também as exigências silenciosas, os adiamentos pessoais e as renúncias frequentemente invisíveis que marcam muitas trajetórias no serviço público e nas carreiras de Estado.

O debate sobre a estrutura remuneratória do Judiciário é legítimo e necessário. Deve existir. Mas precisa ser conduzido com respeito, responsabilidade intelectual e honestidade institucional. Magistrados da base não definem regras remuneratórias, nem criam estruturas legais de pagamento. Submetem-se, como todos os agentes públicos, ao sistema normativo e aos órgãos e mecanismos de controle previstos em lei.

Misturar esse debate técnico com a morte recente de uma jovem juíza não fortalece a crítica institucional. Apenas empobrece a esfera pública e converte sofrimento humano em instrumento de sarcasmo.

As inúmeras manifestações vindas de outros tribunais, associações de magistrados, entidades do Ministério Público, da Defensoria Pública, organizações de mulheres e até de instituições tradicionalmente críticas ao sistema de Justiça, posteriores ao episódio, revelam que a perplexidade ultrapassou fronteiras corporativas. O que causou indignação não foi o debate sobre vencimentos. Foi a banalização da dor.

Quando a lógica do impacto instantâneo, do meme e da viralização substitui a prudência, a medida e a humanidade, todos perdemos um pouco. Perde o jornalismo. Perde o debate público. Perdem as instituições. E perde a própria sociedade, que passa a naturalizar formas cada vez mais agressivas de desumanização.

Nenhuma instituição ou corporação está acima da crítica. Mas nenhuma crítica se engrandece quando abdica da dignidade.

Que a memória de Mariana nos ajude a recuperar algo que o país parece estar perigosamente disposto a perder: a capacidade de discordar sem degradar, de debater sem desumanizar e de criticar sem transformar a dor alheia em entretenimento.

Eduardo Uhlein
Desembargador, é presidente do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul

Artigo publicado na edição desta quarta-feira (13/5) no jornal Folha de S. Paulo