Respeita as Gurias: campanha reúne histórias reais para incentivar denúncias contra violência doméstica 

Respeita as Gurias: campanha reúne histórias reais para incentivar denúncias contra violência doméstica 

O distanciamento social, imposto pela pandemia, trouxe novos desafios no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher. Para auxiliar nessa luta, inúmeras iniciativas têm surgido como forma de incentivar a denúncia desse tipo de situação. É o caso da campanha “Respeita as Gurias”, que reúne depoimentos reais de casos de violência e busca alcançar especialmente as mulheres que não possuem acesso a internet. 

Idealizado pela magistrada Márcia Kern, atual vice-presidente Cultural da AJURIS, o projeto contou com depoimentos em áudio de cinco mulheres que já sofreram violência doméstica. Os spots, pensados para veiculação nas rádios, abordam diferentes situações e buscam criar um ponto de identificação com quem vivencia a violência dentro ou fora de casa. 

Segundo a magistrada, a ideia é que os depoimentos possam ser utilizados pelas rádios de todo o Brasil. O material da campanha pode ser acessado por meio da Rádio Themis ou nas redes sociais do Tribunal de Justiça (TJRS). “Se a gente conseguir atingir uma mulher e sensibilizar que ela tenha a empatia com esses áudios, realizando a denúncia, todo nosso esforço já valeu a pena”, destaca a juíza. A campanha ainda conta com a trilha musical da artista gaúcha Mariana Bavaresco, que cedeu voz e canção para o projeto. 

A magistrada também conta que o conceito do projeto surgiu a partir da leitura do livro “As Boas Mulheres da China”, da jornalista chinesa Xinran. “Ela tinha um programa de rádio através do qual ela contava as histórias das mulheres, histórias que retratavam as mais diferentes dificuldades, de violência doméstica, opressão, tudo o que se possa imaginar, e esse programa tinha muita audiência e acabava dando coragem para que as pessoas falassem e pudessem enfrentar seus problemas”, ressaltou. 

Projeto Borboleta Lilás

O projeto Borboleta Lilás, citado pela magistrada como ponto de partida para a gravação dos depoimentos da campanha, foi lançado em 2018 e trabalha com o atendimento diferenciado para vítimas sobreviventes de tentativas de feminicídio. Com a iniciativa, os processos envolvendo esse tipo de caso recebem uma sinalização específica – uma tarja lilás – na Vara do Júri de Porto Alegre, para que as mulheres sobreviventes, seus familiares e o autor do crime sejam encaminhados para ações e atividades de acompanhamento existentes no Juizado da Violência Doméstica da Capital. 

Além de fortalecer, empoderar e estabelecer novas rotinas para essas mulheres, o projeto também busca dar visibilidade e agilidade aos processos, bem como trabalhar pela erradicação da violência contra a mulher. A iniciativa nasceu a partir do projeto Borboleta, que já era desenvolvido desde 2014 no Judiciário gaúcho com ações de proteção e reeducação para que os homens envolvidos em casos agressão pudessem se transformar. 

Violência doméstica durante a pandemia 

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado, houve um aumento de casos de feminicídios no RS durante o período de isolamento social. Nos meses de março, abril e maio 28 mulheres foram assassinadas por questões de gênero. Ao todo, de janeiro a junho deste ano, 51 mulheres morreram vítimas de feminicídio no estado, 166 registraram ocorrência de tentativa de feminicídio e 9.685 registraram ocorrência de agressão com lesão corporal. 


Texto e edição de vídeo: Vinícios Sparremberger